Scarlatti

Alessandro Scarlatti nasceu em Palermo (Itália), em 2 de maio de 1660. Filho de pais sicilianos, pertencia, segundo alguns genealogistas, ao ramo siciliano de uma família muito antiga de origem toscana. Era o mais velho de sete irmãos, alguns dos quais vieram a ser músicos: Anna Maria, Melchiorra e Tommaso, cantores; Francesco, compositor. Quando contava cerca de doze anos, foi enviado para o continente com as duas irmãs, e as três crianças foram residir na casa de alguns parentes, em Roma (talvez em 1672, mas o mais tardar, em 1677).
Nada se sabe acerca desses primeiros anos de juventude ou dos seus estudos. É provável que, em Roma, Alessandro tenha sido aluno de Foggia e Pasquini (mais do que Carissimi, falecido em janeiro de 1674, ou do napolitano Provenzale). Em 1678 casou, e no ano seguinte a sua primeira ópera, Gli equivoci nel sembiante, foi representada no pequeno teatro do Collegio Clemetino, por iniciativa da rainha Cristina, da Suécia; esta pediu ao jovem músico que fosse o seu mestre de capela privado e aceitou, em 1684, ser madrinha do seu quinto filho (teria dez).
Em 1683, deixou Roma com vários cantores e dirigiu-se para Nápoles, para aí apresentar as suas obras. Sua irmã Melchiorra, que o precedera em 1682 (Anna Maria, em contrapartida, seria a última a deixar Roma), já se tinha tornado amante do secretário de justiça do vice-rei. Esta posição permitiu-lhe fazer com que o seu irmão fosse nomeado mestre de capela da capela real, lugar que, de direito, pertencia a Provenzale, mestre reputado e segundo mestre da capela real. Este último demitiu-se, o caso transformou-se num escândalo, o secretário de justiça foi exonerado, mas A.Scarlatti conservou o lugar.
Tendo-se transformado rapidamente no músico da moda entre a aristocracia napolitana, participou, de forma regular, na maior parte das festas públicas e privadas, compôs inúmeras cantatas de câmara, peças de circunstância e óperas para San Bartolomeo e para o teatro do Palais-Royal. A maior parte da sua carreira centrou-se em Nápoles, mas houve duas longas estadas em Roma: a primeira (1702-1708) beneficinado de uma licença de quatro meses (!), concedida para o convite de Fernando de Médicis para dirigir a Florença com seu filho Domenico; a segunda (1717-1722), com uma licença de seis meses, para levar à cena as suas obras durante o carnaval.
Em 1702, depois de quatro meses passados em Florença, preferiu não regressar a Nápoles, por temer perturbações políticas em conseqüência da Guerra de Sucessão na Espanha: aceitou os lugares de segundo mestre da Santa Maria Maior e de mestre de música privada do cardeal Ottoboni. Em 1707, foi a Veneza para a representação de duas obras importantes: Mitridate Eupator e Il trionfo della libertá.
Em 1708, o novo governo austríaco tornou a chamá-lo à Nápoles, onde foi reintegrado nas suas antigas funções. Estava no auge de sua carreira e os 10 anos seguintes que passou em Nápoles foram, tanto para ele como para a família, um período de intensa atividade artística. Depois da segunda estada prolongada em Roma (prolongamento sem, ao que parece, qualquer outro motivo para além de conveniências pessoais), terminou os seus dias em Nápoles (22 de outubro de 1725). Durante estes três últmos anos, teve alguns alunos particulares, entre eles Hasse, que considerava um pouco como seu filho. Foi sepultado na igreja de Montesanto, em Nápoles.
A atribuição de vários alunos a A.Scarlatti é pura invenção, propagada de há quase um século para cá. Foi professor no conservatório de Santa Maria di Loretto, mas apenas durante um mês, em 1689, e só teve (além de seu filho Domenico) alguns alunos particulares no final de sua vida. Mas embora não tenha sido o "fundador da escola napolitana", esta deve-lhe muito da sua originalidade e da sua glória. Foi, acima de tudo, um dos primeiros grandes músicos clássicos, no que pode ser considerado um precursor direto de Mozart.
As suas obras de juventude fazem lembrar Purcell, devido à sua encantadora espontaneidade e à elegância da invenção melódica e da escrita polifônica. Entre os 25 e 40 anos, a adoração que lhe votavam em Nápoles fê-lo sucumbir à tentação da facilidade, sobretudo no campo da ópera. As melhores obras deste período, La Rosaura e Laodicea e Berenice, não fogem completamente a esta indiferença criativa. Todavia, esta fase é aquela em que A.Scarlatti aperfeiçoou a forma da aria da capo (ABA) que adotou como tipo único de ária de ópera, e aquela que utilizou, pela primeira vez, a chamada abertura italiana.
Foi também a época em que se aperfeiçoou o gênero da cantata de câmara, gênero cujo apogeu se situa a roda de 1700 e de que A.Scarlatti foi mestre incontestado: nesta música, essencialmente íntima e refinada, evidenciou um notável virtuosismo de escrita. Os últimos 25 anos da sua vida foram o período das maiores obras-primas em todos os gêneros. Nas mais belas óperas desta fase (Mitridate Eupator, Tigrane, Cambise e Griselda), o grande estilo clássico da ópera aparece em todo o seu esplendor, e a deliciosa ópera cômica Il trionfo dell'Onore contém páginas dignas de Mozart.
É autor de 115 óperas, quase todas sérias (apenas pode-se citar cerca de 70, das quais foram encontrada a partitura completa, ou árias separadas ou somente o libreto), cerca de 30 oratórios, 60 motetos, 10 missas, mais de 600 cantatas de câmara, 21 serenatas ou cantatas de circunstância, 12 sinfonias de concerto grosso, sonatas a quatro (ou quarteto de cordas), 2 suítes para flauta e cravo, sonata para 1, 2, 3 flautas e baixo contínuo, além de algumas obras teóricas.