Seixas

José Antonio Carlos de Seixas, conhecido em sua época pelo seus primeiros três nomes e atualmente por Carlos Seixas, nasceu em Coimbra a 11 de junho de 1704. Estudou, ao que se julga, com o seu pai, Francisco Vaz, organista da Catedral de Coimbra. Depois da morte deste, tomou o seu lugar durante um período de dois anos.
Apesar da sua juventude, Seixas ganhou fama de músico excelente, que parecia trazer já de Coimbra e se avolumou na capital. Não tardou a nomeação para organista da catedral de Lisboa (Sé Patriarcal) em 1720, significando, que Seixas passava a pertencer à capela régia. Nesta cidade viria mais tarde a conseguir a proeza de lhe ser atribuído o titulo de segundo mestre da capela real.
Esta honra deve ser exaltada numa altura em que o mestre da capela era o famoso Domenico Scarlatti e a capela real era apenas constituída por músicos provenientes da Itália. Da relação entre Scarlatti e o seu jovem aprendiz português, um manuscrito da época conta-nos um episódio interessante:
O infante D. Antonio, irmão de D. João V, encarregou Domenico Scarlatti a dar lições a Carlos Seixas. Porém, mal este pôs as mãos no teclado, o mestre napolitano teria dito que nada poderia ensinar ao português, antes aprender com ele. E a sua informação ao infante seria de que Seixas era um dos melhores músicos que em toda a sua vida tinha ouvido.
Se este episódio realmente aconteceu ou não, e admitindo ser verdadeiro, é certo que Scarlatti estaria apenas tentando ser simpático com um membro da família real portuguesa. O que é certo é que a obra de Carlos Seixas não deixa qualquer dúvida da profunda originalidade criativa do seu autor e - por extensão - da escola de cravo portuguesa deste período. Seixas morreu cedo, com apenas 38 anos, a 25 de agosto de 1742, em Lisboa.
Seixas foi um brilhante improvisador. Em grande parte, a sua obra foi composta para instrumento de teclado, sendo as suas peças geralmente denominadas por tocata e sonata, que neste caso têm um significado idêntico. Embora a Biblioteca Lusitana diga que o compositor nos legou mais de setecentas tocatas para cravo, apenas cento e cinco chegaram até nós. Culpa do nefasto terremoto de 1755 e do eterno descuido português, como certamente nos lembraria Antonio Victorino de Almeida.
Muitas dessas cento e cinco tocatas encontram-se duplicadas e com freqüentes e significativas diferenças ante os respectivos originais, nos vários manuscritos preservados nas bibliotecas da universidade de Coimbra e nacional de Lisboa. Neles encontramos exemplos reveladores da evolução da sonata barroca para teclado, desde a sua forma simples em duas partes.
Em alguns casos, Seixas vai para além do limite imposto por esta estrutura dual e expande a seção inicial da segunda parte da obra com uma passagem tão cheia de modulação e liberdade de manipulação temática - antes de voltar a um paralelismo estrito com a primeira parte - que no fim nos presenteia com uma estrutura tri-partida, parecendo antecipar a forma Sonata do período Clássico de Haydn e Mozart.
Por outro lado, o caráter irregular e assimétrico do frasear e a escrita fortemente ritmada do compositor português, deve ser apontada, pois, contrariamente ao balanceado frasear de Scarlatti, com a sua medida regular (a chamada quadratura barroca), dispersa freqüentemente as suas frases em diferentes grupos de compassos.
A sua harmonia é em geral de uma simplicidade extrema, utilizando normalmente modulações para tonalidades paralelas ou do mais próximo nível no ciclo de quintas. A sua inspiração está por isso fundamentalmente direcionada para a invenção melódica, especialmente nos movimentos lentos com uma expressão melancólica dos sentimentos reforçada pela sua preferência de tonalidades menores.
Felizmente também chegaram até nós algumas das suas peças orquestrais, registadas num manuscrito da biblioteca da Ajuda. Para além da sua qualidade intrínseca, estas obras têm também o interesse de documentarem o conhecimento de algumas formas musicais significativas do barroco instrumental Europeu de uso muito diminutamente documentado na Península Ibérica.
Em estilo francês é a Abertura em ré maior, com um primeiro movimento lento em ritmo constante e seções alternantes em tempos contrários, características próprias desta forma musical. Fantástico é o Concerto para cravo, que é um dos primeiros exemplos do gênero em toda a Europa e que constitui menos um fenômeno de assimilação das convenções estilísticas exteriores, do que uma contribuição original e de pleno direito para a música Barroca européia. A Sinfonia em si bemol maior tem a característica seqüencial italiana: rápido - lento - rápido.