Para começar a escutar música clássica

Não sei por onde começar." Se o problema é esse, a resposta é fácil: qualquer lugar. Assim como ninguém entra na literatura lendo "A Bíblia", "A Odisséia", "A Eneida" e "A Divina Comédia", nessa ordem, também não há por que pensar que a cronologia seja o melhor caminho para quem se interessa em escutar música "clássica". Qualquer compositor, de qualquer período, será uma boa porta de entrada.

"Clássica" vai entre aspas, porque não é um bom nome. Nem toda a música clássica foi composta no período clássico (segunda metade do século 18), nem todos os clássicos viraram clássicos. Mas "música clássica" ainda é melhor do que "música erudita" (nome pomposo: o contrário seria "música ignorante"?), ou "música de concerto" (nem sempre verdade: o que dizer de toda a tradição litúrgica, para ficar só nesse exemplo?). Na prática, todo mundo sabe o que é música clássica, embora nem todo mundo escute.

Também não é todo mundo que lê Shakespeare e Machado de Assis. Mas ninguém disputa que autores assim serão sempre importantes na nossa cultura.

O mesmo vale para Bach, Mozart, Beethoven, Stravinski ou Villa-Lobos muito embora a posição da música ainda seja muito distinta da que a literatura, bem ou mal, desfruta.

Já que falamos nesses cinco compositores, vale a pena dizer algumas palavras sobre cada um. Sugestão por sugestão, são portas de entrada e tanto.

De Johann Sebastian Bach (1685-1750), a vontade é dizer que ele se confunde com a arte da música, tal como a conhecemos. Um compositor que, ao mesmo tempo, é todos e nenhum. O pão, o sal e a água da música: "O Cravo Bem Temperado", "A Paixão Segundo São Mateus", "Suítes para Violoncelo Solo", "Concertos Brandemburgueses", "Missa em Si Menor".

Wolfgang Amadeus Mozart (1756-91) foi o maior compositor do período clássico, propriamente dito. "Mozartiano" virou sinônimo para tudo aquilo, na música ou fora dela, que se dá com fluência e graça, com generosidade e espírito: das óperas "A Flauta Mágica" e "Don Giovanni" aos "Concertos para piano e orquestra", das "Sinfonias" (especialmente as últimas três: números 39 a 41) aos "Quartetos" e "Quintetos".

Com Ludwig van Beethoven (1770-1827), entramos na modernidade. A música passa a ser uma das formas mais altas de o homem pensar a si mesmo. Matéria bruta (som, silêncio) vira instrumento de pensamento e poesia: não só nas justamente canonizadas "Nove Sinfonias", mas também nas "Sonatas" para piano, nos "Quartetos de Cordas", nos "Concertos", na "Missa Solemnis".

Igor Stravinski (1882-1971) precisa entrar nessa seletíssima lista, porque não vamos deixar o século 20 de fora. E "A Sagração da Primavera", de 1913, virtualmente inventa o século, com sua energia perpetuamente renovada.

Já Heitor Villa-Lobos (1887-1959) inventa o Brasil: cada compasso das "Bachianas Brasileiras" guarda uma presença humana inconfundível, mas que se confunde agora com todos nós todos nós que, pelos motivos mais variados, nos descrevemos como brasileiros.

Enfim: são cinco compositores que todo mundo deveria se dar a chance de conhecer. Em qualquer ordem e sem obrigação de ser sistemático. Para escutar música, não é preciso nada além de boa vontade e um mínimo de iniciativa. O resto vem naturalmente.

Em São Paulo, a rádio Cultura FM (www.culturafm.com.br) mantém uma programação quase inteiramente voltada para a música clássica. Outra opção óbvia são os concertos na Sala São Paulo (Osesp) e no Municipal (Orquestra Sinfônica Municipal). Os ingressos são baratos e o ambiente, informal.

Vale lembrar que nada se compara a um bom concerto ao vivo. Seja para quem toca, seja para quem escuta, o que mais importa na música clássica, como em qualquer outra, é o que acontece entre eles, um entendimento maior e melhor do que qualquer palavra.