O processo criativo de Mozart

 

Em interessantísima carta inédita datada de 12 de outubro de 1790, "Mozart, der Goettlich", (Mozart, o divino), como o cognominava Beethoven, a pedido de um amigo, nos inicia no segredo do processo com que se elaboravam no seu cérebro as idéias musicais.

Como é que eu trabalho e como executo grandes composições musicais ? Não posso em realidade dizer-lhe senão isto: quando me sinto bem disposto, seja em carruagem quando viajo, seja de noite quando durmo, acodem-me as idéias aos jorros, soberbamente. Como e donde, não sei. As que me agradam, guardo-as como se me tivessem sido trazidas por outras pessoas, retenho-as bem na memória e, uma após outra, delas tomo a parte necessária para fazer um pastel segundo as regras do contraponto, da harmonia, dos instrumentos, etc. Então, quando estou em profundo sossêgo, sinto aquilo crescer, crescer para a claridade de tal forma, que a obra mesmo extensa se completa na minha cabeça e posso abrangê-la num só relance, como um belo retrato ou uma bela mulher, e isso não parte por parte, mas de uma só vez. Achar aquilo e realizá-lo é um sonho soberbo _ que se desenvolve dentro de mim. Quando chego a esse ponto, nada mais esqueço, porque a memória é o melhor dom que Deus me deu." (...)