A segunda onda de nacionalismo musical da Europa

A "modernidade" de Schumann parecia servir melhor que o academismo de Mendelssohn para transformar em música "séria" os diversos folclores nacionais dos estudantes estrangeiros de música nos Conservatórios da Alemanha.

Enquanto na Inglaterra se tocava Mendelssohn, na Rússia estudava-se Schumann.

Estamos diante de uma segunda onda de nacionalismo sendo que, desta vez, já não se quer contribuir com algo novo para a música ocidental mas, sim, tentar preservar seus próprios valores contra a avassaladora influência alemã.

Nesta nova onda de nacionalismo, além de Schumann, destaca-se Liszt.

Franz (Ferencz) Liszt (1811-1886) conseguiu no piano o que Paganini conseguiu no violino.

A grande habilidade para improvisar, a sólida cultura musical e um gosto requintado fizeram dele o maior pianista de todos os tempos.

Tornou-se chefe do Neu-deutsche Musikbewegung (Movimento Musical Neo-Alemão) e propagandista da música de Wagner. Ajudou mestres ainda pouco reconhecidos como Berlioz, e talentos novos como Grieg, Smetana e Peter Cornelius. O centro musical da Europa estava, graças a ele, em Weimar, onde foi diretor musical do teatro.

Inventou estilos de harmonia e orquestração, bem como uma nova forma romântica de obra musical, o poema sinfônico. Este consiste numa composição orquestral que segue a literatura ou outro programa. Um único movimento, geralmente organizado ou como uma sonata, ou como uma sinfonia de um movimento.

Realizou-se plenamente só na música para piano, seu instrumento.

Entre 1850 e 1880 também se vive o nacionalismo político. Acontecem a unificação da Itália e da Alemanha, a Dinamarca se defende contra a agressão prussiana, os poloneses tentam, mais uma vez, a revolução contra a Rússia, os tchecos aderem ao pan-eslavismo, a Hungria consegue parcial independência dentro do Império Austro-Húngaro. De temperamento húngaro, Liszt só é nacionalista numa pequena parte de sua obra como, por exemplo, nas Rapsódias Húngaras, baseado na música popular urbana húngara. Na arte, como na vida, foi um eclético, não tem nada do nacionalismo democrático do século. Seus últimos trabalhos, mal compreendidos pelos seus contemporâneos, são surpreendentemente modernos e antecipam muitos dos planos de Debussy, Ravel, Bartok e dos expressionistas austríacos.

A) Os tchecos

Os tchecos, povo de uma musicalidade e um folclore musical riquíssimos, foram, dentro do Império Austro-Húngaro, os maiores adversários da Hungria.

Bedrich Smetana (1824-1884) foi o fundador da música nacional tcheca. Usou as formas da música ocidental apenas como veículo de material folclórico. Discípulo de Liszt, também sofreu influência de Wagner. Após o sucesso de sua ópera folclórica cômica A Noiva Vendida (1866), foi considerado em toda parte como o criador de um estilo musical autenticamente tcheco, admirado e imitado por muitos compositores mais tarde. Tem preferência pela música de programa como em Má Vlast.

Antonín Dvorak (1841-1904), também usou encantadoramente o folclore musical tcheco. Saliente-se que, nem Smetana nem Dvorak usaram melodias folclóricas existentes. Ambos inventaram seus temas. Dvorak foi discípulo de Schumann e Brahms, mas seu amor secreto foi a música de Schubert. Trabalhou com todas as formas e sua música tem um frescor espontâneo que às vezes oculta o talento da sua construção. Conquistou enorme popularidade internacional.

b) Os russos: (o Grupo dos Cinco, Tchaikovsky e Rachmaninov)

Os nacionalistas russos do "Grupo dos Cinco", também chamado "O Grupo Poderoso", retomou a tradição legada por Glinka, criando uma música especificamente russa, deliberadamente diferente da música ocidental, embora sob influência de Schumann e Liszt.

Seu nacionalismo intolerante faz pensar nos seus contemporâneos da literatura russa, nos "eslavófilos", dos quais Dostoiévski é a maior figura. Como estes, tinham o interesse pelo passado histórico da Rússia, pelos velhos costumes e pela Igreja ortodoxa.

Os Narodniki eram os intelectuais dos "radicais", grupo que desejava ocidentalizar a Rússia para libertá-la do despotismo oriental dos czares. Esses intelectuais abandonavam seus lares para viver com os pobres, com os camponeses e mendigos para difundir, entre eles, a luz da ciência e da esperança de libertação. Grupo contrário, portanto, aos nacionalistas, em que se inseriam os "Cinco". Os "Cinco", como Glinka, eram patriotas e fiéis ao czar, mas sentiam simpatia para com o povo humilde. Embora sem objetivos políticos, foram, também, Narodniki.

Aleksandr Sergeyevich Dargomyzhsky (1813-1869) foi o mais velho dos "Cinco". Seu trabalho mais importante é The Stone Guest, uma ópera que reproduz, não apenas os ritmos mas, também, o vigor da fala russa, exercendo uma grande influência em Mussorgsky e outros compositores russos posteriores.

Cesar Antonovitch Cui (1835-1918), apesar de seus sentimentos nacionalistas, suas dez óperas mostram tanto caracteres russos quanto franceses. Foi mais importante como crítico do que como compositor.

Mily Alekseyevich Balakirev (1837-1910) foi a figura central do movimento nacionalista russo. Colecionou canções populares e foi dos primeiros a se interessar pela música dos povos orientais.

Aleksandr Porfirevich Borodin (1833-1887) era perfeccionista, procurava escrever música tão elaborada quanto a de Brahms. A sua Sinfonia nº 2 (1876) é "a mais russa" das obras instrumentais dos "Cinco".

Modest Petrovich Mussorgsky (1839-1881) foi o gênio do movimento nacionalista. Sua música "ilustrativa" pretende a Verdade, imitando a realidade sem embelezá-la. Seguindo a tendência dos Narodnik, foi em direção ao povo através de seus lieder, que não têm nada em comum com o lied romântico alemão. Seu objetivo é o realismo perfeito, com um caráter dramático, até teatral. Sua maior obra foi a ópera Boris Godunov (1869, revista em 1872), onde encontramos a harmonia sacro-eslava, o ritmo "falado", que surge diretamente do ritmo das palavras faladas, o "populismo" e o motivo permanente da Morte. Mas, seus próprios contemporâneos russos, não acostumados àquela música tão diferente do que, até então, se ouvia, chegaram a considerá-lo como um louco ou como ignorante das regras elementares da composição musical. Na verdade, ele foi um autodidata que nunca chegou a dominar as regras acadêmicas. Por isso mesmo teve a liberdade de criar obra originalíssima. Rimsky-Korsakov fez, em 1896, uma versão e adaptação de Boris Godunov, retificando erros mas, também, eliminando traços originais e característicos de Mussorgsky. Mas a verdade é que foi a versão de Rimsky-Korsakov que fez a obra vencer as resistências que enfrentava, tanto na Rússia como na Europa.

Nikolai Andreyevich Rimsky-Korsakov (1844-1908), apesar de nacionalista, compôs a música menos eslava de todos os compositores russos, repleta de orientalismos e outros exotismos. Talvez seja o maior mestre da orquestração em toda a música moderna. Sua arte de produzir sonoridades fascinantes e fantásticas é inigualada. Sofreu influências ocidentais, como a música de programa de Liszt e a arte da orquestração de Berlioz. Entre seus alunos, destacam-se Stravinsky e Prokofiev.

Pjotr Ilyich Tchaikovsky (1840-1893) foi adversário do nacionalismo dos "Cinco", acreditando ser, assim, mais russo que eles próprios. Esperava a salvação da música russa pelos contatos com o ocidente, onde seu ídolo era Mozart. Suas óperas, conforme a opinião da crítica russa, são suas obras-primas. Mas a maior parte de sua obra é música instrumental, sendo os balés os mais populares. O sucesso de Tchaikovsky no ocidente foi enorme, sua música foi recebida como expressão autêntica da alma russa. Nessa mesma época o ocidente também era apresentado a Tolstoi e Dostoiévski. Os três ocuparam o mesmo altar.

Sergei Vasilievich Rachmaninov (1873-1943), um dos principais virtuoses do piano da primeira metade do século XX, foi antinacionalista sem renegar o lastro de mentalidade eslava. É considerado o último compositor romântico russo. Sofreu grande influência de Tchaikovsky. Após a Revolução Russa de 1917, foi para os Estados Unidos e nunca mais voltou à Russia.

A primeira onda de nacionalismo musical das nações da Europa oriental pouco impressionou o Ocidente. A segunda onda foi mais agressiva e, por isso mesmo, passaram-se decênios para que um Borodin, um Mussorgsky fossem reconhecidos como gênios. O sucesso coube aos ocidentalizados como Liszt ou aos ecléticos como Tchaikovsky.

c) Os noruegueses

Nesse tempo a Noruega esforçava-se para romper os laços culturais que a prendiam à Dinamarca. Essa independência musical foi conseguida por Richard Nordraak (1842-1866). Suas poucas obras pianísticas e lieder bastaram para inspirar o maior compositor norueguês: Grieg.

Edvard Hagerup Grieg (1843-1907) defendia que a música norueguesa deveria basear-se apenas no rico folclore musical da nação, mesmo que causasse estranheza ao público europeu. Seu mais conhecido trabalho nessa categoria é a música incidental Peer Gynt (1874-75). Mas, na realidade, Grieg era um schumanniano que não desprezava as lições de Liszt. Suas peças líricas, para piano, são mais alemãs que escandinavas. Seus numerosos lieder exploram com felicidade o folclore nórdico, embora preferisse pôr em música poesias alemãs.

d) O finlandês

Jean Sibelius (1865-1957) ocupou, nos países anglo-saxônios, o lugar de Grieg. Em 1890, inspirando-se no Kalevala, um poema épico finlandês, compõe várias cantatas e poemas sinfônicos que coincidem com o clímax da onda de nacionalismo e luta para libertar a Finlândia dos russos. Foi transformado num herói nacional. Músico de formação acadêmica, tinha instintos anacrônicamente românticos. Suas sinfonias, excetuando-se as duas primeiras que são tchaikovsquianas, são afrescos musicais, de natureza épica.

Tchaikovsky e Grieg são homens da segunda metade do século XIX. Eles, como todos os mestres tchecos e russos da segunda onda nacionalista, são de 30 a 50 anos mais novos que Wagner e, apesar disso, todos eles, não sofreram influência de Wagner.