Coral Paulistano

“Cantar em brasileiro”: foi perseguindo esta idéia que Mário de Andrade, então diretor do Departamento Municipal de Cultura, criou o Coral Paulistano, em 1936.

A proposta era levar a música brasileira para o público que freqüentava o Theatro Municipal, uma proposta de vanguarda, já que a elite paulistana da época, acostumada aos sotaques da música francesa e da ópera italiana, não dava grande importância o movimento nacionalista que contagiava os compositores brasileiros à época.

Marco da história da música em São Paulo nos últimos 65 anos, o Paulistano foi um dos muitos desdobramentos do movimento modernista detonado na Semana de Arte Moderna de 1922. O interesse nacionalista fez o Departamento Cultural criar em sua discoteca pública, um arquivo de melodias populares recolhidas por músicos ou através de gravações e filmagens. Utilizando-se deste material, o departamento encomendava novas obras aos compositores. Talvez por isso, boa parte da produção de música coral do final dos anos 30, dos anos 40 e início dos 50 foi destinada ao Coral Paulistano.

Em poucos anos, transformou-se em referência sonora para maestros e compositores que freqüentavam seus ensaios no intuito de contribuir e aprender.

Eleito várias vezes pelos críticos como “coral modelo”, realizou inúmeras primeiras audições de obras. Camargo Guarnieri, seu primeiro maestro, apresentou cerca de 50 obras novas para o público. Fructuoso Vianna, seu sucessor, apresentou outras 25 peças, e Miguel Arqueróns, que fez mais de 800 concertos como diretor do Paulistano, apresentou 340 obras em primeira audição. Esta, aliás, foi uma das linhas mestras do trabalho do Coral Paulistano ao longo de sua história: estimular a produção e execução de uma música coral genuinamente brasileira. O repertório do grupo, no entanto, sempre foi mais abrangente, apresentando obras de todas as épocas e estilos da música vocal ocidental.

A década de 70 foi, por vários motivos, um período de afastamento do coro e seu público. Durante o período da ditadura militar, as apresentações do coro rarearam, obrigando o grupo, a partir dos anos 80, a procurar novos meios de comunicação com a população. Neste período, o Paulistano fez suas primeiras incursões cênicas como o Magnificat de Bach, com o Balé da Cidade, e a ópera As bodas de Fígaro de Mozart. Já nos anos 90 participou de Xerxes de Haendel, e Os Pescadores de Pérolas de Bizet, entre outras.

Em 65 anos, o Coral teve a honra de receber orientação de Camargo Guarnieri (1936 a 1938), Fructuoso Vianna (1938 a 1940), Miguel Arqueróns (1940 a 1965 e 1976 a 1978), Túlio Colacioppo (1966 a 1974), Zwinglio Faustini e Antão Fernandes (1975), Samuel Kerr (1978 a 1983 e 1990 a 2001), Henrique Gregori (1983 a 1984), Roberto Casemiro(1984 a 1988) e Abel Rocha (1988 a 1990).

Neste, que é o primeiro programa sob orientação da maestrina Mara Campos, o grupo recorre à música polifônica, período áureo da música vocal no ocidente para rever seus parâmetros sonoros e lançar um desafio para toda a comunidade de coros profissionais e amadores da cidade: reativar o movimento coral há tantos anos enfraquecido em São Paulo, criar uma nova relação com seu público, fazer sonhar e questionar, agradar e, por que não, incomodar. Enfim, assumir a postura de vanguarda que nosso saudoso Mário de Andrade tanto defendeu.