Orchestra of the Age of Enlightnment

No ano de 1986, alguns dos melhores executantes britânicos de instrumentos antigos reuniram-se para fundar uma orquestra auto-gerida: nascia assim a Orchestra of the Age of Enlightenment-OEA, criada com a finalidade de abordar sobretudo a música dos séculos XVII, XVIII e XIX.

Presidida atualmente por Marshall Marcus, um de seus membros fundadores, a orquestra não demorou a ser reconhecida como uma formação excepcional. Tão excepcional, que em 1992 seus músicos levariam Frans Brüggen e Simon Rattle – maestro este que já vinha colaborando com o conjunto desde 1986, quando de uma aclamada apresentação do Idomeneo de Mozart – a aceitarem o convite para associar seus nomes à Orquestra, como Regentes Convidados Principais.

Com seus excepcionais dons artísticos e seu prestígio mundial, Brüggen e Rattle dariam ainda maior impulso ao propósito da Orchestra of the Age of Enlightenment de combinar a interpretação de época com os valores contemporâneos, característica que é fortalecida pelos grandes regentes internacionais que colaboram regularmente com o grupo. Como escreveu Andrew Clements no jornal The Guardian: "talvez a mais revolucionária inovação da Orchestra of the Age of Enlightenment tenha sido contar também com regentes dos modernos mundos da ópera e dos instrumentos sinfônicos”. Desse modo, a OAE passou a poder oferecer ao público um repertório ampliado e uma expressiva diversidade de enfoques artísticos.

A ampliação do repertório, aliás, é um importante aspecto do trabalho da Orchestra of the Age of Enlightenment, já que o grupo costuma abordar obras e compositores raramente ouvidos em instrumentos de época. Ao longo de sua última temporada, a Orquestra explorou o repertório romântico, sob a batuta de Roger Norrington (Mahler), Mark Elder (Verdi) e Vladimir Jurowski (Glinka e Borodin), e pôde contar ainda com a colaboração do violoncelista e regente francês Christophe Coin.

Como um reflexo de sua vocação para desbravar também novos territórios musicais, a Orquestra e seu violinista Ken Aiso apresentaram na edição de 2001 do Festival de Música do Japão um programa composto pela justaposição de obras inglesas e japonesas dos séculos XVII e XXI. Outros dois pontos de destaque da última temporada da Orchestra of the Age of Enlightenment foram sua participação no Händel Festival, do Royal Festival Hall de Londres, e seus elogiados concertos da Paixão Segundo São João de Bach, sob regência de Simon Rattle.

A OAE participa anualmente do prestigioso Festival de Glyndebourne desde 1989, quando ali apresentou As Bodas de Fígaro, sob regência de Simon Rattle. Recentemente, a relação do grupo com esse evento foi aprofundada e oficializada com a indicação da Orchestra of the Age of Enlightenment como “Orquestra Associada do Festival de Glyndebourne”. A OAE também se apresenta regularmente no Symphony Hall de Londres e em Birmingham, bem como em importantes salas de música de Nova Iorque e Paris. No início deste ano, o conjunto realizou uma temporada parisiense de grande sucesso, no Théâtre du Châtelet, onde apresentou as óperas Rodelinda de Handel, sob regência de William Christie, e Fidelio de Beethoven, sob direção de Simon Rattle.

A discografia da Orchestra of the Age of Enlightenment reúne mais de cinqüenta títulos e abrange um repertório que se estende de Purcell a Verdi. Dentre seus lançamentos recentes encontram-se uma aplaudida gravação de Dido and Aeneas de Purcell – regência de René Jacobs, com Gerald Finley, Lynne Dawson e Rosemary Joshua – e os álbuns Árias de Verdi, com Thomas Hampson, Árias de Mozart, com Nathalie Dessay, e Árias de Mozart e Gluck, com Susan Graham.

Principal orquestra de instrumentos antigos da Grã-Bretanha, a OAE concentra-se na música dos séculos XVII, XVIII e XIX não apenas como base de seu repertório, mas também como fonte de inspiração para projetos educativos e interartísticos. Dentre suas iniciativas nesses campos merecem destaque: o Programa de Ensino e Extensão de Música de Época, criado em 1994; a Mostra Audiovisual “Um Vivo Retrato de Família”, de 2000/2001 – baseada na música de Händel e no quadro de mesmo nome do pintor neoclássico Johan Zoffany, a Mostra foi uma realização conjunta da Orquestra e da National Portrait Gallery de Londres; e, no início deste ano, o Projeto “Händel na Arte” – inspirado no oratório Jephtha, “Handel na Arte” foi a segunda colaboração entre a OAE e a National Portrait Gallery.

Dependente por completo de patrocínios privados para financiar suas principais atividades, a Orchestra of the Age of Enlightenment tem contado, desde 1999, com os benefícios de uma bem-sucedida parceria com a Jupiter Unit Trust Managers, e tem recebido ainda o precioso apoio da Charterhouse, da Derwent Valley Holdings, da Goldman Sachs e da GlaxoSmithKline.

Algumas Palavras sobre os Instrumentos Antigos por James Ellis.

Quando a Orchestra of the Age of Enlightenment se apresentou no Royal Concert Hall tempos atrás, um de seus membros fundadores, Tim Mason, perguntou à princesa Margaret se ela sabia alguma coisa sobre os instrumentos antigos. Dando uma longa tragada em seu cigarro, a princesa afirmou saber que "os instrumentos antigos são caríssimos". Bem, eles são e não são.

Instrumentos feitos vários séculos atrás são raros. Os instrumentos italianos de cordas do século XVII – os Guarneri e Stradivari, por exemplo – são verdadeiros tesouros de colecionador. Já os instrumentos antigos de sopro geralmente não passam de peças de museu, por causa da deterioração provocada pela umidade. E um instrumento inutilizável e caro não é uma combinação que interesse muito à maioria dos músicos. Na verdade, a maior parte dos instrumentos "antigos" tocados hoje em dia são reproduções modernas de instrumentos antigos. Assim, para evitar mal-entendidos, tende-se a usar o termo "instrumentos de época". Isso significa fazer música nos tipos de instrumentos que eram utilizados quando a obra foi composta, ou, melhor dizendo, para os quais a obra foi composta.

Que importância tem isso? Bem, com as inovações tecnológicas introduzidas ao longo dos anos, os instrumentos se desenvolveram. Uma liga de metal mais duradoura pôde fazer com que as chaves extras acrescentadas ao clarinete proporcionassem maior comodidade ao clarinetista; o desenvolvimento da produção de fios metálicos levou ao uso de cordas de aço, que permitem uma tensão maior; um trombone de maior dimensão produz um som mais condizente com as grandes salas de concerto; do mesmo modo, a flauta de metal possui um timbre muito mais cheio do que o de sua predecessora de madeira.

Essas mudanças acontecem como respostas às exigências de uma maior complexidade musical, de novos estilos de música, ou, simplesmente, porque possibilitam uma execução mais precisa. Mas o fato é que, com elas, os instrumentos mais novos passaram a soar diferentemente dos instrumentos mais antigos, e essa diferença sonora trouxe consigo uma alteração do equilíbrio e da tessitura.

Na verdade, em termos de sonoridade, se o som combinado que os instrumentos produzem numa orquestra sinfônica de nossos dias seria irreconhecível até para Bruckner e Brahms, que dirá para Mozart e Beethoven? Daí a preocupação central dos instrumentistas de época: procurar reproduzir, dentro das limitações de seu conhecimento histórico, a sonoridade geral, em termos de tessitura, clareza, equilíbrio e fraseado, que os compositores do passado tinham em mente ao criar suas obras.