West-Eastern Divan Orchestra

A idéia é digna de um mestre. De dois mestres. De dois grandes amigos, idealistas e visionários, artistas e intelectuais de grande prestígio que acreditavam no poder de força da música. De um lado o pianista e regente de nacionalidade argentino-israelense Daniel Barenboim, do outro o filósofo, crítico literário e ícone cultural no eixo Cairo/Nova York, o americano-palestino Edward Said, já falecido.

Através desta iniciativa inteiramente pioneira, Barenboim e Said pretendiam provar que através da música povos antagônicos podem e conseguem superar suas desavenças, absorvendo o crescimento musical dentro de uma coletividade como um todo. Para Barenboim, “estratégica ou moralmente, não há solução militar para o conflito do Oriente Médio”. Mas acredita, sim, que a música tem algo a dizer às nações.

Desafiando críticas ferozes e pessimistas históricos arraigados, assimilando apoios fundamentais, e acreditando profundamente em suas próprias convicções, os dois amigos criaram a West-Eastern Divan Orchestra. Seu objetivo central consiste em reunir num mesmo palco, jovens estudantes entre 13 e 26 anos, compondo um conjunto sinfônico de 78 músicos. Jovens estudantes, vindo de países árabes: Líbia, Jordânia, Egito, Palestina, e de Israel. Half and half. Segundo Barenboim a orquestra é uma versão musical do que pensa sobre o Oriente Médio, uma visão onde cada um é capaz de contribuir e o todo é mais importante do que a soma das partes.

Todavia, de acordo com seus dois idealizadores, a West-Eastern Divan não deverá ser considerada como um exercício político, e, sim, basicamente motivada pela música. Para Said, ela é apolítica. Não pretende construir pontes. Trata-se apenas de um conjunto de pessoas inteligentes e coerentes, vivendo juntas. Para Barenboim, Titular da Sinfônica de Chicago e da Staatsoper unter den Linden Berlim, a simples existência da orquestra já é uma postura política suficiente. Seu entusiasmo não tem limites quando o assunto é passar seu conhecimento para a nova geração.

Além do aspecto pioneiro do projeto, o que imediatamente chama nossa atenção é o seu nome. A etimologia da palavra divan – divã, para nós – é eclética. Pode, sim, significar pura e simplesmente um assento. Em árabe o termo possui significados mais abrangentes. Na Pérsia, originalmente diwan queria dizer uma brochura. Com o passar dos tempos, tornou-se um local de encontros. De pessoas e idéias. Um grande hall. Que remete justamente ao último grande ciclo da obra do poeta alemão Goethe: West-Eastern Divan, uma síntese entre a poesia européia e a islâmica.

Daniel Barenboim e Edward Said se inspiraram nesse nome como metáfora do que pode ser alcançado no Oriente Médio.

A West-Eastern Divan foi fundada em 1999 em Weimar. Naquele ano, a cidade havia sido escolhida Capital Cultural da Europa, e as autoridades solicitaram a Daniel Barenboim que organizasse algo especial. Por outro lado, o ano marcava também as comemorações do 250º aniversário de nascimento de Goethe naquela cidade. Valendo-se do importante pólo cultural centralizado em Weimar, Barenboim teve a idéia de criar, numa primeira etapa, um fórum no qual jovens estudantes de música do Oriente Médio, árabes, palestinos e israelenses, pudessem se encontrar. Daí para a criação da orquestra foi um passo.

O primeiro concerto aconteceu em Weimar em 1999, pouco depois, no mesmo ano, cruzaram o Atlântico apresentando-se em Chicago. A capital marroquina, Rabat, foi a cidade escolhida para a primeira apresentação em solo árabe, com a presença da família real. Seguiram-se concertos em territórios palestinos, bem como em várias e importantes salas européias, como Lübeck, Berlim, no Proms da BBC em 2003 ou no Royal Albert Hall em Londres, onde foram recebidos com uma estraordinária stand ovation por mais de 30 minutos após a interpretação do Concerto para Três Pianos de Mozart.

A partir de julho 2003, em pleno século XXI, a cidade de Sevilha na Andaluzia, onde judeus e comunidades muçulmanas viveram em harmonia durante séculos junto aos cristãos, tornou-se sede oficial dos encontros anuais da orquestra. Um “lugar de encontro” – o diwan árabe – entre árabes, judeus e cristãos. O projeto inclui a criação da Fundação Barenboim-Said, com um orçamento beirando três milhões de dólares, financiado pelo governo da Andaluzia e pela Fundación Tres Culturas de Mediterraneo, promovida pelo Marrocos.

Observando-os da platéia, obedecendo cegamente à batuta do Chefe, são todos iguais. Músicos apenas, que lá estão pelo mútuo prazer de fazer música. São seis anos desde a sua criação, e mesmo assim, a Orquestra da Paz, como é mundialmente chamada, já produziu frutos artísticos. O primeiro oboé da Orquestra do Cairo saiu da Divan, bem como vários dos violinistas atuais da Filarmônica de Israel

Depoimentos dos próprios músicos :

Para a violinista egípcia Mina Sikri, o fato de conhecer os membros israelenses da orquestra humanizou o outro lado. Na orquestra, Mina acabou ajudando os israelenses, incluindo uma fagotista, Ayelet Ballin. Diz Mina “agora, quando a vejo, penso : aqui está minha amiga, e não aqui está uma pessoa israelense”.

Diz o israelense Yoni Etzion: “todos nós temos aqui o mesmo propósito, fazer música. E isso nos une”.

O árabe Jibran afirma que fortes laços de amizade foram criados entre as nacionalidades. Joseph seu colega israelense na estante dos violinos, “tem orgulho de fazer parte do que chama um evento histórico”.

Críticas também existem. Ou co-existem. Para Barenboim, “if you believe in something, and consider it important, you have to forget about achieving consensus”.

De acordo com as aspirações de ambos os fundadores deste maravilhoso projeto, ele somente será plenamente efetivado, quando a orquestra puder apresentar-se em todos os países. O que não é o caso. Ainda não puderam tocar na Síria nem em Israel.

PREMIAÇÕES :

2003 – Principe de Astúrias para Barenboim e Said por sua contribuição à paz mundial – Oviedo – Espanha

2004 – Prêmio Wolf – Israel

Julho de 2005.