c h o p i n - (1810-1849)

Os historiadores poloneses, inconformados, tentaram de todas as formas encontrar raízes eslavas para a sua grande glória nacional. No entanto, o maior músico da Polônia era mesmo filho de um imigrante francês, passou a maior parte de sua vida em Paris e, hoje, é universalmente conhecido como Frédéric François Chopin , e não com o nome de Fryderik Franciszek que lhe foi dado quando o batizaram na igrejinha de Brochów, próximo ao solar de Zelazowa Wola, a seis léguas de Varsóvia, onde nasceu.

Não se sabe bem por que Nicolas Chopin, filho de um carpinteiro de Marainville, perto de Nantes, nascido em 1771, deixou a Lorena aos 17 anos e foi para Varsóvia. Em 1802, Nicolas tornou-se preceptor dos seis filhos da condessa Vitória Skarbek. Em sua propriedade de Zelazowa Wola, conheceu a pianista Justina Krzyzanowska, dama de honra e parente distante da dona da casa. Casaram-se em 2 de junho de 1806, e a condessa os instalou em um anexo de sua mansão. Ali nasceu, a primeira filha, Luisa, a quem o pai chamava de Louise. A 22 de fevereiro de 1810, nascia o menino Fryderik, que teve a condessa como madrinha.

Logo após o nascimento desse segundo filho, a família mudou-se para Varsóvia, onde Nicolas acabara de ser nomeado professor de francês do Liceu. Deram-lhe um espaçoso alojamento no antigo Palácio Saxão, onde a escola funcionava e, para aumentar seus rendimentos, ele passou a alugar cômodos a filhos das famílias aristocráticas que vinham estudar na cidade. Nos anos seguintes nasceram Isabel e Emília e Nicolas teve que trabalhar mais, passando também a lecionar na Escola de Artilharia e Engenharia.

A vocação de Fréderic para a música revelou-se cedo. Contam que, bebê ainda, engatinhava para debaixo do cravo, cada vez que a mãe estava tocando. Certo dia, ao escutar marchas militares, emitiu uns gritos desesperados - mais tarde, ao lembrar o episódio, Chopin declarou que desde pequeno detestava a música barulhenta e vazia. Aos seis anos de idade, encontraram-no uma noite, empoleirando no banquinho do harmônio, tentando tirar uma melodia. Estava claro que o menino era inusitadamente dotado. Diante disso, contrataram o melhor professor disponível na época: Adalberto Zywny, tcheco de nascimento, que viera para a Polônia na comitiva do príncipe Sapieha e tornara-se pianista da corte de Stanislau Augusto Poniatowski.

Dizem que só o seu piano conseguia acalmar as bruscas crises de mau-humor e melancolia do duque Constantino Pavlovich, irmão do czar, vice-rei da Polônia. Em 1817, ele começou a exercer uma espécie de mecenato sobre Chopin. Com freqüência o ordenança do duque vinha buscá-lo em sua casa, e o levava ao Palácio do Belvedere, onde o vice-rei o ouvia durante horas.

Até mesmo que o menino soubesse escrever, Zywny já anotava as suas tentativas de compor pequenas melodias. Em janeiro de 1818, pouco antes de fazer oito anos, apresentou-se em público pela primeira vez, tocando um concerto para piano e orquestra de Adalberto Gyrowetz, compositor tcheco muito apreciado na época - escreveu também, nessa ocasião, uma peça teatral, em colaboração com a sua irmã -; e o professor conseguiu que fosse publicada sua primeira composição, uma polonesa dedicada à condessa Skarbek.

Comentando esse recital, o Jornal de Varsóvia afirmou: 'O filho de Nicolas Chopin, professor de francês e literatura no Liceu de Varsóvia, é um verdadeiro gênio musical. Executa ao piano, com facilidade e gosto notáveis, os trechos mais difíceis, e já compôs danças e variações que enchem de espanto os críticos e conhecedores. Se tivesse nascido na Alemanha ou na França, sem dúvida, já seria célebre no mundo inteiro'. E o autor do artigo concluiu com uma nota indisfarçada de ufanismo: 'Desejamos lembrar ao leitor que nosso país também pode produzir gênios!'. Foi o que bastou para que fosse comparado a Mozart.

Surgiram convites para que ele tocasse em salões da nobreza. A banda do exército fez um arranjo de uma marcha que ele tinha composto. Ao visitar o Liceu, a czarina-mãe pediu para ouvi-lo e, além de tocar para ela duas polonesas de sua autoria, o menino declamou também um poema em francês, provavelmente escrito por seu pai.

Diferente do pai de Mozart (Leopoldo), Nicolas Chopin não pensava em tirar proveito financeiro do talento precoce de seu filho. Ao contrário: prezando muito os diplomas universitários, insistiu para que ele cursasse o Liceu, entre 1823 e 1826. Literatura e teatro, principalmente, o atraíam muito, além da música, a ponto de ter fundado, com as irmãs e os colegas de pensão - mais numerosos desde que a família passara a ocupar os cômodos bem amplos do Palácio Casimir - uma Sociedade de Recreação Literária, destinada a fazer encenações domésticas de comédias que eles mesmos escreviam.

O Frédéric criança pouco tinha a ver com a imagem do adulto introspectivo, doentio e melancólico que nos vêm a mente quando pensamos em Chopin. Estudava seriamente música, mas tinha um caráter alegre e impulsivo, e os interesses de um menino normal, como demostram as cartas escritas para casa durante as férias de verão passadas em Szafarnia, a sudoeste de Varsóvia, em casa dos pais de Domenico, um dos pensionistas da família Chopin. Sua vida, entretanto era cansativa: a todo momento era chamado para tocar em público. Nos dois grandes concertos que deu em 1825 - ano marcante, pois em junho foi publicado, por Brzezina, o maior editor de música da Polônia, o seu Rondo em dó menor Op. 1 -, a crítica o acolheu como 'o maior pianista de Varsóvia'. Os estudos no Liceu, que estavam em sua fase final, também exigiam muito dele; e eram dias muito tensos, pois o assassinato do czar Alexandre III e a revolta dos decembristas tinham provocado, na Rússia, violenta repressão cujas ondas chegavam até a Polônia, onde houve várias prisões e alguns patriotas chegaram a ser mortos. Tudo isso afetou muito o jovem Chopin que, e junho, após obter o diploma, teve de ser levado pela mãe para um tratamento na estação de águas Reinerz, na Silésia.

De volta a Varsóvia, Chopin foi matriculado no Conservatório, para receber noções mais avançadas de harmonia e contraponto, onde conheceu um dos homens que maior influência teriam sobre ele: o diretor da escola, José Elsner. Nascido da Silésia, Elsner era culto, afável, muito amado pelos alunos, de quem estava sempre rodeado. Começara a carreira como primeiro violino da orquestra de Brno, na atual Rep. Tcheca; depois tornara-se regente em Lwów e diretor da Ópera de Varsóvia, antes de chegar ao cargo que ocupava quando o seu caminho cruzou com o de Chopin.

Autor de 23 óperas, missas, sinfonias, Elsner empenhou-se muito, sobretudo, na criação de uma escola nacional polonesa de música. Nesse sentido, escreveu a Dissertação sobre a métrica e ritmo da língua polonesa, na qual procurava demonstrar - contradizendo a opinião dos conservadores - ser perfeitamente possível desenvolver um repertório de canções na língua pátria, tão eufônica e adequada à escrita musical quanto o italiano, o francês ou o alemão. Essa preocupação nacionalista de Elsner marcou profundamente o seu discípulo: as polonesas, as mazurcas, o entranhado sabor polonês que há em cada uma de suas melodias.

Foram anos despreocupados, de alegres temporadas passadas no castelo de Antonio Radziwill, músico amador que tocava violoncelo e compunha (uma de suas filhas, Eliza, era artista plástica e desenhou várias vezes retratos de Chopin ao piano). Mas foi também a época da primeira advertência quanto à grande sombra que planaria sobre ele a vida inteira: em março de 1827, a tuberculose levou sua irmã Emília (Justina envergou, pela filha, um luto que nunca mais tiraria). Os problemas de saúde que, de vez em quando, o obrigavam a ir descansar em Reinerz, em breve demonstrariam ser muito mais graves.

Nessa época, Chopin fazia enorme sucesso como virtuose e compunha ativamente: valsas, polonesas, mazurcas, o belo Noturno em mi menor que só seria publicado após a sua morte. E principalmente as Variações sobre o tema do La ci darem la mano, de Don Giovanni de Mozart - que, ao serem publicadas, em 1831, provocariam de Schumann uma reação famosíssima. Ele iniciaria um artigo no Jornal Geral da Música, de Leipzig, exclamando: 'Tirem os chapéus, senhores, um gênio!'. Esta é a fase também em que Chopin tentou trabalhar com as grandes formas tradicionais: a Sonata em dó menor Op. 4, o Trio em sol menor que dedicou a seu hospedeiro Radziwill, a Grande fantasia sobre árias polonesas Op. 13, para piano e orquestra, as canções sobre poemas em polonês.

Permanecer isolado na Polônia começava-lhe pesar. Chopin sentia serem necessários vôos mais ousados. 'Não seria melhor se eu fosse para Paris?', perguntou ao médico que lhe aconselhara nova estação de águas em Reinerz. Sentia a vontade de cortar as amarras que só aumentou depois que, em setembro de 1828, foi a Berlim acompanhado de Felix Jarocki, colega de seu pai na universidade, que ia participar, na capital da Prússia, de um congresso de naturalistas organizado pelo famoso Alexandre de Humboldt. Lá, ficou fascinado ao escutar a Ode para o dia de Santa Cecília, de Haendel. O contato com a cidade - que fazia Varsóvia parecer uma aldeia - e a possibilidade de ouvir obras de Spontini, Cimarosa, Weber e Mendelssohn deram-lhe a certeza de que o seu destino estava fora da Polônia.

Tendo o governo polonês recusado uma bolsa de 5 mil florins a seu filho - 'recursos dessa ordem não podem ser desperdiçados com artistas', dizia a resposta do ministério -, Nicolas resolveu custear uma viagem de Chopin a Viena, onde ele chegou, com um grupo de amigos, em 31 de julho de 1829. Descobriu partituras novas de Méhul, Boïeldieu, Meyerbeer e Rossini, obteve do editor de Haslinger a promessa de publicar as Variações sobre o tema do La ci darem la mano, e foi convidado pelo conde Gallenberg, intendente dos teatros imperiais, a dar um concerto no Teatro Kärntnerthor, em 11 de agosto.

Nem tudo, porém, saiu como Chopin esperava. A timidez fez com que se sentisse inibido diante do público vienense e do 'maravilhoso piano Graff, melhor de todos os que eu já tinha tocado'; os ensaios rápidos demais não tinham dado tempo à orquestra de aprender o acompanhamento do Rondo à Cracóvia, e foi necessário substituí-lo, na última hora, por improvisações sobre um tema de A dama branca, de Boïeldieu. 'Mas as variações provocaram tamanho entusiasmo que fui chamado de volta várias vezes, sob uma tempestade de aplausos', escreveu para os pais.

Dezenove anos, admirado, festejado - o dramaturgo Stanislau Niemcewitz chegou a fazer dele a personagem de uma comédia satírica em que se vê a alta sociedade de Varsóvia fascinada por um jovem pianista - e, agora, também, apaixonado. Foi numa carta a seu amigo Tito Woyciechowski que ele teve a coragem de confessar os sentimentos que nutria por Constança Gladkowska, filha do administrador do palácio real: 'Há seis meses sonho com ela todas as noites e ainda não lhe dirigi a palavra. Foi pensando nela que compus o adagio de meu concerto (o em fá menor) e também a valsa escrita essa manhã (a n.º 3 Op. 70). Quantas vezes confio ao piano o que gostaria de poder desabafar com outro coração!'.

Constança estudava canto no conservatório, onde ele poderia ter-se declarado a ela. Muitas vezes, Carlos Soliva, professor da moça, pedia-lhe que a acompanhasse ao piano. E quando Chopin a elogiou pelo desempenho no papel-título da Agnese, de Ferdinando Paër, a garota o presenteou com uma fita que ele guardou a vida inteira, junto com as cartas que recebera do amigo Tito. Entretanto, a timidez parecia impedi-lo de falar-lhe de seus sentimentos; ou, talvez, sentindo que estava próximo o momento da partida, não quisesse criar um vínculo que o prenderia à Polônia.

Seus biógrafos se perguntam, inclusive, se esses sentimentos, intensos mas deliberadamente mantidos num nível platônico, não passariam do pretexto para efusões líricas, da fonte de inspiração para páginas como o adagio do Concerto. E talvez tenham razão, pois foi uma outra amiga, Delfina Potocka, que acabou sendo dedicada essa peça, estreada pelo próprio Chopin num concerto, em Varsóvia, em 17 de março de 1830.

Publicado tardiamente, o Concerto para piano n.º 2 em fá menor Op. 21 foi, na realidade, composto antes do n.º 1 em mi menor Op. 11, e tem um tom bastante mais dramático. O segundo movimento, um larghetto em lá bemol maior, que ele dizia ter sido inspirado pelos sentimentos que Constança despertava nele, é certamente o mais interessante dos três: uma longa cantilena de gosto italianado, com todo o intimismo da confidência amorosa, feita de delicadíssimos arabescos sonoros. Liszt admirava tanto esse larghetto que o decalcou, deliberadamente, no movimento lento e seu Concerto para piano em mi bemol maior.

Dessa época também, e concebido sob o mesmo influxo sentimental, é o encantador Noturno em dó sustenido menor, sua primeira experiência com essa forma, que só seria publicado em 1875, após sua morte, como Op. Póstumo. Chopin não foi o criador do noturno, gênero pianístico de caráter meditativo e melancólico: seu iniciador foi o irlandês João Field, cujas peças desse gênero, compostas entre 1812-1835, tornaram-se muito populares. Contudo, foi o polonês que conferiu a essa forma livre, típica do Romantismo, uma tal riqueza de invenção melódica e harmônica que, hoje, é o seu nome que nos vem espontaneamente à lembrança, à simples menção da palavra 'noturno'.

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