Duelo na música clássica

Essa é uma história fascinante em todos os detalhes. Tudo que envolve a rivalidade entre Mozart e Salieri tem lances dramáticos. A última obra composta por Mozart, uma missa fúnebre, só serviu para incendiar ainda mais a imaginação de quem acompanhava a disputa entre os dois compositores. É isso que mostra a ópera composta pelo russo Pushkin.
A alegria e o jeito debochado e irreverente de Mozart irritavam Salieri. Italiano que vivia em Viena, Antônio Salieri podia ser considerado um operário da música. Estudou muito desde criança. Dissecou a arte erudita como um cadáver, como se diz na montagem que relembra a história dele e de Mozart.

Foi uma convivência marcada pela rivalidade. Para um, faltou compreensão em seu tempo. O extraordinário talento de Mozart só foi reconhecido ao longo dos últimos 250 anos. O reconhecimento do outro se dava mais pelo bom relacionamento com a corte de Viena, no século 18.
“O Salieri foi um compositor que se sobressaiu mais porque foi um bom político, e Mozart estava mais preocupado em fazer aquilo para que nasceu, compor e produzir músicas maravilhosas”, explica o maestro Roberto Minczuk.

Não existe comparação entre a obra de Mozart e a de Salieri. Quem interpreta hoje o que ficou de importante naquela época, entende que Salieri era um músico-homem, com seus defeitos e ambições, e apenas um ponto de referência para mostrar como estava longe, em outro nível, o músico-gênio Mozart.

“Dentro do estereótipo, Salieri estava mais ligado à vida mundana, dos esquemas, das necessidades humanas. Mozart supera, sublima”, acrescenta o cantor lírico Fernando Portari.
Nas mãos do poeta russo Pushkin, o relacionamento entre os dois foi ainda mais que dramático. Segundo a ficção russa, Salieri sentiria uma inveja tão profunda da genialidade do colega que isso o teria levado a envenenar Mozart.

“Ele quer livrar o mundo de um gênio que não vai deixar herdeiros como ele deixou. Salieri foi professor de vários compositores, ninguém estudou com Mozart”, explica o cantor lírico Stephen Bronk.

Os herdeiros de Salieri também se destacaram mais que ele: Beethoven, Schubert e Franz Liszt. Mas nem o currículo de bom e dedicado professor, nem os bons contatos, tiraram Salieri de uma enorme sobra.
“Salieri era um bom compositor. A infelicidade dele foi viver na mesma época de um gigante da música, como Wolfgang Amadeus Mozart”, aponta o maestro.

Mozart realmente morreu jovem, aos 35 anos. Sua última obra também é envolvida em mistério. A encomenda sem identificação de um réquiem, uma peça especial para funerais, tomou os últimos dias do compositor, que já estava muito doente. Ele chegou a declarar que a obra seria para a sua própria missa fúnebre. Até nessa hora, Wolfgang Amadeus Mozart mostrou a grandeza do seu talento e deixou mais um presente para o mundo: o Réquiem em ré menor.

Mozart morreu antes de completar o réquiem. Segundo estudiosos a obra foi encomendada por um conde. Mas muita gente ainda acredita que por trás dessa encomenda estava Salieri.